
Se há um ativo cuja falha redefine o destino de uma subestação de 69 kV, é o transformador de força. Ele é o equipamento de maior valor, maior tempo de reposição e maior impacto sobre a continuidade da operação. Manter o transformador não é uma tarefa entre outras — é o centro de gravidade de todo o programa de confiabilidade da SE.
Neste artigo, quarto da série sobre manutenção de SE 69 kV, percorro por que o transformador é o ativo crítico, quais são seus subsistemas e como degradam, e quais técnicas de diagnóstico permitem ler sua condição. O detalhe dos ensaios elétricos fica para o artigo seguinte; aqui está a anatomia e a lógica do diagnóstico.
Por Raphael Leite Menezes Santos — Especialista em Sistema Elétrico de Potência · Tecnvolt Engenharia · Tempo de leitura: 14–17 min
Resumo técnico
O transformador de força é o ativo crítico da SE 69 kV por baixa redundância, alto tempo de reposição e envelhecimento irreversível do papel isolante. Seus subsistemas — parte ativa (núcleo e enrolamentos), óleo isolante, buchas condensivas, comutador sob carga (OLTC), refrigeração (ONAN/ONAF) e acessórios e proteções (relé Buchholz, válvula de alívio, indicadores) — degradam por caminhos distintos. O diagnóstico é multiparamétrico: DGA, físico-químico do óleo, fator de potência/tan δ, resistência de enrolamento, relação e FRA, complementados por termografia. Confirme a edição vigente das normas.
Quero manutenção do transformador da minha SE 69 kV
1. Por que o transformador é o ativo crítico
Três fatores tornam o transformador o centro do programa de manutenção. O primeiro é a baixa redundância: em muitas SE de 69 kV há um único transformador de força, e sua perda significa a parada total da carga a jusante.

O segundo é o alto tempo de reposição (lead time): um transformador de força não está em estoque — é fabricado sob encomenda e a entrega pode levar muitos meses, o que torna a falha não apenas cara, mas longa. O terceiro, e mais sutil, é o envelhecimento irreversível do sistema papel-óleo isolante: o papel celulósico que isola os enrolamentos se degrada com temperatura, umidade e oxigênio, e essa perda de resistência mecânica não se recupera. O transformador envelhece de dentro para fora, em silêncio — e é justamente esse envelhecimento oculto que o diagnóstico precisa enxergar.
2. Os subsistemas do transformador

A manutenção trata o transformador como um conjunto de subsistemas. A parte ativa (núcleo e enrolamentos) é o coração elétrico, sujeita a esforços mecânicos em curtos e a envelhecimento do isolamento. O óleo isolante cumpre dupla função, isolar e refrigerar, e seu estado revela muito do que ocorre dentro do tanque. As buchas condensivas levam a alta tensão para fora do tanque e são uma causa frequente de falhas, com degradação do isolamento capacitivo. O comutador sob carga (OLTC) ajusta a tensão e é o subsistema com mais peças móveis e mais desgaste. A refrigeração (ONAN/ONAF — circulação natural ou com ventiladores forçados) mantém a temperatura sob controle. E os acessórios e proteções — relé Buchholz, válvula de alívio de pressão, indicadores de temperatura e nível — vigiam o conjunto e devem ser testados.
3. As técnicas de diagnóstico
Nenhum ensaio isolado conta toda a história do transformador. O diagnóstico é multiparamétrico: cada técnica olha um aspecto, e a correlação entre elas é que fecha o quadro. A DGA (análise de gases dissolvidos no óleo) é o exame de sangue do transformador — gases como hidrogênio, acetileno e etileno indicam descargas e sobreaquecimentos internos. O físico-químico do óleo avalia rigidez dielétrica, teor de água, acidez e tensão interfacial. O fator de potência / tan δ mede a qualidade da isolação dos enrolamentos e das buchas. A resistência de enrolamento e a relação de transformação verificam a integridade dos enrolamentos e das conexões internas. A FRA (resposta em frequência) detecta deformações mecânicas dos enrolamentos, típicas após curtos passantes. E a termografia complementa, vendo aquecimentos externos em buchas e conexões.
Boa prática
Combine ensaios energizados e desenergizados ao longo do tempo e leia a tendência, não o ponto isolado. A DGA e o físico-químico, feitos periodicamente com a SE em operação, dão o alerta precoce; os ensaios de parada confirmam e localizam o problema. É a correlação entre técnicas — e o histórico — que sustenta a decisão de manter, intervir ou planejar substituição.
Aviso técnico
A manutenção do transformador envolve alta tensão, energia perigosa e óleo isolante. Os ensaios de parada só se executam com desenergização, bloqueio, teste de ausência de tensão e aterramento temporário, por profissional habilitado e autorizado com treinamento em Sistema Elétrico de Potência (SEP), conforme a NR-10. Confirme a edição vigente das normas.
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Como a Tecnvolt Engenharia executa esse serviço
A Tecnvolt Engenharia faz a manutenção do transformador de força de SE 69 kV de forma multiparamétrica: coleta e analisa óleo (DGA e físico-químico), executa os ensaios elétricos de parada (fator de potência, resistência, relação, FRA), verifica buchas, comutador, refrigeração e proteções, e correlaciona tudo em laudo com ART, indicando condição e ações. Atuamos em campo na região Nordeste, em subestações de indústrias, geração e concessionárias.
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Perguntas frequentes
Qual o ativo mais crítico da SE?
O transformador de força, por três motivos: baixa redundância (muitas vezes é único), alto tempo de reposição (fabricado sob encomenda, meses de espera) e envelhecimento irreversível do papel isolante. Sua falha é cara e demorada de resolver, por isso recebe o diagnóstico mais intenso.
Quais ensaios fazer no transformador?
Um conjunto multiparamétrico: DGA e físico-químico do óleo, fator de potência/tan δ, resistência de enrolamento, relação de transformação, FRA e termografia. Cada um olha um aspecto; a correlação entre eles e o histórico fecham o diagnóstico.
Dá para diagnosticar sem desligar?
Em parte. A DGA, o físico-químico do óleo e a termografia são feitos com o transformador energizado e dão alerta precoce. Já fator de potência, resistência, relação e FRA exigem desligamento, bloqueio e aterramento temporário, conforme a NR-10.
O que causa falha em transformadores?
As causas mais frequentes incluem degradação de buchas, defeitos no comutador (OLTC, o subsistema com mais peças móveis), envelhecimento e umidade do isolamento papel-óleo, e deformações mecânicas dos enrolamentos após curtos passantes. O diagnóstico multiparamétrico cobre esses caminhos.
Referências técnicas
- ABNT NBR 5356 / IEC 60076 — Transformadores de potência.
- IEEE C57.152 — Diagnostic Field Testing of Fluid-Filled Power Transformers.
- IEEE C57.104 — Interpretação de gases dissolvidos (DGA).
- IEC 60422 — Supervisão e manutenção do óleo isolante mineral.
As normas são citadas pelo escopo. Confirme sempre a edição vigente junto à fonte oficial e às exigências regulatórias do setor.
