arrow-up

Para projetar uma proteção eficaz, é preciso entender o adversário. O raio não é uma ‘faísca grande’: é um fenômeno físico com etapas bem definidas e parâmetros mensuráveis — corrente de pico, carga transferida, energia específica e taxa de variação. São exatamente esses parâmetros que ditam o dimensionamento dos componentes do SPDA, a escolha dos DPS e os critérios de seção dos condutores. Conhecer a física da descarga é o que separa um projeto baseado em norma de um projeto baseado em ‘praxe’.

Neste artigo descrevo como a descarga atmosférica se forma — do líder descendente à corrente de retorno — e os parâmetros que a caracterizam, com destaque para as formas de onda normalizadas (10/350 µs e 8/20 µs) usadas em ensaio. Em seguida, percorro os efeitos do raio: térmico, eletrodinâmico, as sobretensões conduzidas e induzidas, e a interferência em sistemas eletrônicos.

Por Raphael Leite Menezes Santos — Especialista em Sistema Elétrico de Potência · Tecnvolt Engenharia · Tempo de leitura: 14–18 min

Parâmetros da corrente de descarga: formas de onda 10/350 e 8/20 µs.
As formas de onda normalizadas: a primeira descarga (10/350 µs) carrega a energia; as subsequentes (8/20 µs) têm alta taxa de variação.

Resumo técnico

O raio começa com um líder descendente em passos, que é encontrado por um líder ascendente da estrutura; o fechamento do canal dispara a corrente de retorno — dezenas de kA em microssegundos. Os parâmetros-chave são corrente de pico, carga, energia específica e di/dt. Em ensaio, a primeira descarga é representada pela onda 10/350 µs (energia) e as subsequentes pela 8/20 µs (taxa). Os efeitos são térmico, eletrodinâmico, sobretensões e interferência eletromagnética.

Quero entender o risco de descargas na minha instalação

1. Como o raio se forma

A descarga nuvem-solo mais comum (negativa descendente) começa com o acúmulo de cargas na base da nuvem. Quando o campo elétrico atinge o valor de ruptura do ar, parte um líder descendente, um canal ionizado que avança em passos rumo ao solo. À medida que ele se aproxima, o campo no solo e nas estruturas altas se intensifica, e pontos elevados (incluindo os captores do SPDA) emitem líderes ascendentes.

Quando um líder ascendente encontra o descendente, o canal se fecha e ocorre a corrente de retorno — a descarga principal, intensamente luminosa, que escoa a carga acumulada. É nesse instante que circulam as dezenas de quiloampères que o SPDA precisa conduzir. Frequentemente seguem-se descargas subsequentes pelo mesmo canal, com menor carga, porém alta taxa de variação.

Como o raio se forma: líder descendente, conexão ascendente, corrente de retorno e efeitos.
Da formação do canal ionizado à corrente de retorno e seus efeitos — a base física que define o dimensionamento do SPDA.

2. Os parâmetros que importam

O dano que o raio causa depende de parâmetros distintos, e cada efeito é governado por um deles:

  • Corrente de pico (I): define a elevação de potencial no aterramento e os esforços eletrodinâmicos.
  • Carga (Q = ∫i dt): responsável pela fusão de metais nos pontos de incidência (efeito térmico no captor).
  • Energia específica (∫i²dt): aquecimento dos condutores e esforço nos componentes.
  • Taxa de variação (di/dt): determina as tensões induzidas em laços e cabos próximos — a principal fonte de dano à eletrônica.
Tensão induzida por di/dtU ≈ M · (di/dt) — quanto maior a taxa de variação, maior a sobretensão induzida

As normas representam esses parâmetros por formas de onda padronizadas: a 10/350 µs, de cauda longa, simula a energia e a carga da primeira descarga (usada para ensaiar DPS Classe I); e a 8/20 µs, mais curta, simula as descargas subsequentes e os surtos induzidos (usada para DPS Classe II).

3. Os efeitos do raio

Efeito térmico: a carga concentrada funde e vaporiza material no ponto de incidência; é o que exige seções e espessuras mínimas nos captores e condutores.

Efeito eletrodinâmico: condutores percorridos por correntes elevadas sofrem forças mecânicas intensas, podendo se deslocar ou romper fixações — daí a necessidade de fixação robusta das descidas.

Sobretensões conduzidas: parte da corrente penetra pelas linhas de energia, dados e telecom, exigindo DPS coordenados para limitar a tensão a níveis suportáveis.

Sobretensões induzidas: o campo magnético do canal induz tensões em laços de cabeamento próximos, mesmo sem contato direto — a causa mais frequente de queima de eletrônica em descargas indiretas.

Por que isso orienta o projeto

Captores e condutores são dimensionados pela carga e energia (efeito térmico); as fixações, pelo esforço eletrodinâmico; os DPS, pelas ondas 10/350 e 8/20; e a blindagem/equipotencialização, pela taxa de variação que induz sobretensões. Entender a física é dimensionar cada parte pelo parâmetro certo.

Aviso técnico

Os valores de corrente, carga e energia associados a cada nível de proteção constam da NBR 5419-1. Use-os conforme a norma; superestimar ou subestimar os parâmetros leva a projetos inseguros ou antieconômicos.

Pedir avaliação de proteção contra descargas

Como a Tecnvolt Engenharia executa esse serviço

A Tecnvolt Engenharia parte dos parâmetros normalizados da descarga para dimensionar corretamente cada elemento do SPDA e a proteção contra surtos: seções de captação e descidas pela energia, fixações pelo esforço eletrodinâmico, e DPS coordenados pelas ondas de ensaio. Traduzimos a física do raio em um projeto aderente à NBR 5419. Atendemos a região Nordeste.

Falar com a Tecnvolt sobre proteção contra raios

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre as ondas 10/350 µs e 8/20 µs?

A 10/350 µs, de cauda longa, representa a energia e a carga da primeira descarga e é usada para ensaiar DPS Classe I. A 8/20 µs, mais curta, representa as descargas subsequentes e os surtos induzidos, sendo usada para DPS Classe II.

O que causa a queima de eletrônicos por raio sem incidência direta?

As sobretensões induzidas. A alta taxa de variação da corrente (di/dt) gera campos magnéticos que induzem tensões em laços de cabeamento próximos, danificando equipamentos mesmo quando o raio não atinge diretamente a estrutura.

Por que captores e condutores têm seção mínima?

Por causa dos efeitos térmico e de energia específica: a carga concentrada funde material no ponto de incidência e a corrente aquece os condutores. As seções mínimas garantem que os componentes suportem a descarga sem fundir.

O SPDA reduz a energia do raio?

Não. O SPDA não diminui a energia da descarga; ele controla por onde a corrente passa, conduzindo-a com segurança ao solo e limitando os efeitos sobre a estrutura e os sistemas internos.

Referências técnicas

  1. ABNT NBR 5419-1 — Princípios gerais (parâmetros da corrente de descarga e formas de onda).
  2. IEC 62305-1 — General principles.
  3. ABNT NBR 5419-4 — Sistemas elétricos e eletrônicos internos (surtos e DPS).
  4. IEC 61643 (série) — Low-voltage surge protective devices.

As normas são citadas pelo escopo. Confirme sempre a edição vigente junto à fonte oficial (ABNT, IEC) antes de aplicar critérios.