A análise de gases dissolvidos no óleo isolante — DGA, do inglês Dissolved Gas Analysis — é o exame mais sensível e mais valioso da manutenção preditiva de transformadores. Ela funciona como um hemograma do equipamento: a partir de uma pequena amostra de óleo, revela defeitos térmicos e elétricos em estágio incipiente, muito antes que qualquer proteção atue ou que o defeito se torne visível. Para um ativo cuja falha é destrutiva e cujo reparo leva meses, ter um exame capaz de antecipar o problema em semanas ou anos não é luxo — é o pilar do programa de confiabilidade.
Neste artigo detalho a base física da DGA, os gases-chave e o que cada um significa, os métodos de interpretação consagrados (gases-chave, razões de Rogers e Doernenburg, e o Triângulo de Duval) e o papel das normas IEC 60599 e IEEE C57.104. O objetivo é que o leitor saia capaz de ler um laudo de DGA com olhos críticos e entender por que um único resultado isolado quase nunca fecha o diagnóstico.
Por Raphael Leite Menezes Santos — Especialista em Sistema Elétrico de Potência · Tecnvolt Engenharia · Tempo de leitura: 16–20 min

Resumo técnico
Defeitos no transformador decompõem o óleo e o papel, gerando gases característicos. A DGA mede esses gases (H2, CH4, C2H6, C2H4, C2H2, CO, CO2) e usa sua proporção para classificar o defeito: descargas parciais, descargas de baixa/alta energia ou defeitos térmicos em faixas de temperatura. Métodos como razões de Rogers/Doernenburg e o Triângulo de Duval mapeiam essas proporções em tipos de falha. A interpretação robusta combina concentrações, taxas de geração e tendência ao longo do tempo, sempre à luz da IEC 60599 e da IEEE C57.104.Quero interpretar a DGA do meu transformador com a Tecnvolt
1. Por que defeitos geram gases
O óleo mineral isolante é composto majoritariamente por hidrocarbonetos. Quando submetido a energia anormal — calor excessivo ou descargas elétricas — suas ligações químicas se quebram, liberando gases de hidrocarbonetos leves e hidrogênio. A celulose do papel isolante, por sua vez, ao se degradar termicamente, libera monóxido e dióxido de carbono. A genialidade da DGA está em que cada tipo de defeito gera uma assinatura gasosa diferente, porque a energia necessária para formar cada gás é distinta.
De forma simplificada: defeitos de baixa energia (como descargas parciais) favorecem o hidrogênio; defeitos térmicos de média temperatura favorecem metano e etano; temperaturas mais altas favorecem o etileno; e o acetileno, que exige a maior energia, é o marcador de arco elétrico — descargas de alta energia. Por isso a presença de acetileno em quantidade significativa é sempre tratada como alerta sério.

2. Os gases-chave e seu significado
- Hidrogênio (H2): presente em quase todo tipo de defeito; predominante em descargas parciais.
- Metano (CH4) e etano (C2H6): marcadores de defeitos térmicos de temperatura baixa a média.
- Etileno (C2H4): indica defeitos térmicos de alta temperatura (sobreaquecimento severo).
- Acetileno (C2H2): exige alta energia; é o marcador de arco elétrico. Sua presença e, sobretudo, seu crescimento são tratados com máxima prioridade.
- Monóxido (CO) e dióxido de carbono (CO2): originados da degradação da celulose; sua relação CO2/CO ajuda a distinguir envelhecimento normal de degradação térmica acelerada do papel.
Além das concentrações absolutas, dois parâmetros são decisivos: o TDCG (gás combustível dissolvido total) e a taxa de geração (quanto cada gás cresce por dia ou por mês). Um transformador com gases altos porém estáveis há anos pode estar em condição controlada; um com gases moderados porém em rápida ascensão exige ação imediata.
3. Métodos de interpretação por razões
Os métodos das razões de Doernenburg e de Rogers comparam pares de gases. A lógica é que a razão entre dois gases reflete a temperatura ou a energia do defeito, independentemente do volume de óleo. A IEC 60599 codifica três razões principais para classificar o defeito em famílias: descargas parciais, descargas de baixa e de alta energia, e defeitos térmicos em três faixas de temperatura.
A limitação dos métodos de razões é que, quando as concentrações são baixas, pequenas variações distorcem a razão e podem levar a ‘casos não determináveis’. Por isso eles não devem ser aplicados isoladamente nem quando os gases ainda estão próximos do ruído de medição.
4. O Triângulo de Duval
O Triângulo de Duval é, hoje, um dos métodos gráficos mais usados, justamente por ser robusto mesmo quando as razões falham. Ele usa as proporções relativas de apenas três gases — metano, etileno e acetileno — plotadas em um diagrama triangular dividido em zonas que correspondem a tipos de defeito: PD (descargas parciais), D1 e D2 (descargas de baixa e alta energia), T1, T2 e T3 (defeitos térmicos em ordem crescente de temperatura) e zonas mistas.

A vantagem do triângulo é que ele sempre fornece um diagnóstico (o ponto sempre cai em alguma zona), o que o torna útil para triagem. A contrapartida é que ele não informa, sozinho, a severidade — apenas o tipo. Daí a importância de combinar o triângulo com as concentrações absolutas e a tendência temporal.
5. As normas e o papel da tendência
A IEC 60599 e a IEEE C57.104 são as referências centrais. A IEEE C57.104 organiza a interpretação em níveis de concentração e em status que orientam a frequência de reamostragem e a necessidade de investigação. A IEC 60599 detalha os métodos de razões e o tratamento dos casos. Ambas convergem em um ponto fundamental: a tendência é mais informativa do que o valor pontual. Um histórico de DGAs permite calcular taxas de geração e identificar inflexões — o sinal mais confiável de um defeito ativo.
Boa prática de interpretação
Nunca decida com base em um único laudo. Combine: (1) concentrações absolutas e TDCG; (2) classificação do defeito por Duval e razões; (3) taxa de geração entre amostras; e (4) correlação com outros ensaios (físico-químico, fator de potência, termografia). O diagnóstico confiável é a convergência dessas evidências.
Aviso técnico
A qualidade da DGA começa na amostragem. Seringa contaminada, exposição ao ar, bolhas e identificação trocada inutilizam o exame e podem gerar diagnósticos falsos. A coleta deve seguir procedimento normalizado, por pessoal treinado, com rastreabilidade do laboratório.
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Como a Tecnvolt Engenharia executa essa manutenção
A Tecnvolt Engenharia realiza a coleta de óleo com procedimento controlado, encaminha a análise a laboratório e interpreta o resultado de forma multiparamétrica — cruzando Duval, razões, concentrações, TDCG e a tendência histórica. Entregamos um laudo com a classificação do defeito, a severidade estimada e a recomendação de ação (reamostrar, investigar, inspecionar internamente), integrando a DGA ao programa de diagnóstico do ativo. Atuamos na região Nordeste, em transformadores de indústrias, subestações e geração.
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Perguntas frequentes
O que a DGA detecta em um transformador?
Detecta defeitos internos incipientes — descargas parciais, arcos elétricos e sobreaquecimentos — pela assinatura dos gases gerados na decomposição do óleo e do papel. É o exame de maior sensibilidade para diagnóstico precoce, sem necessidade de desligar o equipamento.
A presença de acetileno significa que o transformador vai falhar?
O acetileno é o marcador de arco elétrico de alta energia e deve ser tratado com prioridade máxima, mas o diagnóstico depende da quantidade, da tendência e da correlação com outros ensaios. Acetileno crescente exige investigação imediata; valores baixos e estáveis podem ter origem em eventos antigos.
Com que frequência fazer a DGA?
Anualmente para ativos comuns e semestral ou trimestral para ativos críticos ou com tendência de gases. Após qualquer evento (curto passante, atuação de proteção), a coleta deve ser imediata, independentemente do calendário.
Um único laudo de DGA fecha o diagnóstico?
Não. O diagnóstico confiável combina concentrações, classificação por Duval e razões, taxa de geração entre amostras e correlação com outros ensaios. A tendência ao longo do tempo é mais informativa do que qualquer valor pontual.
Referências técnicas
- IEC 60599 — Mineral oil-filled electrical equipment in service: guidance on the interpretation of dissolved and free gases analysis.
- IEEE Std C57.104 — Guide for the Interpretation of Gases Generated in Mineral Oil-Immersed Transformers.
- ABNT NBR 7274 — Interpretação da análise dos gases de transformadores em serviço.
- M. Duval — trabalhos sobre o método do triângulo para diagnóstico de DGA (literatura técnica reconhecida).
- CIGRE — Brochuras do SC A2 sobre DGA e diagnóstico de transformadores.
As normas são citadas pelo escopo. Confirme sempre a edição vigente junto à fonte oficial (IEC, IEEE, ABNT, CIGRE) antes de aplicar critérios.
