As descargas parciais (DP) não constituem um fenômeno único: classificam-se em internas (cavidade), superficiais e corona, cada uma com mecanismo físico, localização e assinatura distintos. Diferenciá-las é decisivo porque a ação de manutenção depende do mecanismo. Este artigo detalha cada tipo, sua física e como o padrão PRPD e os métodos de localização ajudam a distingui-los.

Por Raphael Leite Menezes Santos — Especialista em Sistema Elétrico de Potência · Tecnvolt Engenharia (Recife/PE)

Ensaio de descarga parcial em equipamento de alta tensão
Cada tipo de DP tem mecanismo, localização e assinatura próprios.

Resumo. Classificam-se as DP em internas (cavidades e delaminações), superficiais (tracking sobre a isolação) e corona (no ar, em pontas). Descrevem-se os mecanismos físicos, as assinaturas típicas no PRPD, a evolução para arborescências (treeing) e as técnicas para diferenciá-las, ressaltando que a ação de manutenção depende do tipo.

1. Classificação dos mecanismos

A literatura clássica (Kreuger) e as normas distinguem as DP por onde e como ocorrem. Internas, dentro do volume do dielétrico; superficiais, ao longo de uma interface sólido-gás; e corona, em gases junto a eletrodos pontiagudos. Cada categoria responde de forma própria à amplitude e à polaridade da tensão, o que se reflete no PRPD.

2. Descarga interna (cavidade)

É a forma mais relevante para isolação sólida e impregnada. Ocorre em vazios, bolhas e delaminações internas, onde a diferença de permissividade concentra o campo e o gás de baixa rigidez rompe primeiro (lei de Paschen). Sua assinatura PRPD típica são dois clusters relativamente simétricos, próximos aos picos, em ambos os semiciclos. Com o tempo, a erosão pode evoluir para arborescência elétrica (electrical treeing), canais ramificados que avançam até a perfuração.

3. Descarga superficial

Ocorre sobre a superfície da isolação, quando a componente tangencial do campo é alta e há fatores agravantes como contaminação, umidade ou poluição. Pode evoluir para trilhamento (tracking) — caminhos carbonizados condutivos sobre a superfície. É comum em terminações, cabeças de bobina e isoladores. No PRPD, tende a produzir clusters mais largos e frequentemente assimétricos entre os semiciclos.

4. Descarga corona

É a descarga em gás (ar) junto a eletrodos de pequeno raio de curvatura (pontas, bordas, rebarbas), onde o campo é intensificado. Tem forte dependência de polaridade — os conhecidos pulsos de Trichel no semiciclo negativo são um exemplo —, o que no PRPD aparece como concentração marcada em um dos semiciclos. Muitas vezes a corona é externa e pode ser mitigada por correção de geometria, sem mexer na isolação principal.

Cartões com os tipos de descargas parciais: interna, superficial e corona
Os três grandes tipos de descargas parciais.

5. Assinaturas comparadas no PRPD

O PRPD ajuda a separar os mecanismos, mas com cautela: várias fontes podem coexistir e se sobrepor.

Gráfico PRPD com assinaturas de descargas internas e de superfície/corona
Assinaturas típicas no PRPD — interpretação sempre técnica.

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6. Por que diferenciar é decisivo

A ação corretiva depende do tipo. Corona externa pode pedir apenas correção de geometria/distâncias ou limpeza. DP superficial por contaminação pode ser tratada com limpeza técnica e melhoria do controle de campo. Já a DP interna avançada, com delaminação ou treeing, costuma exigir reparo ou substituição. Tratar tudo como “DP genérica” leva a intervenções erradas — ou a subestimar um risco real.

7. Como diferenciar na prática

A distinção combina três frentes: o padrão PRPD (posição em fase, simetria, forma dos clusters); a localização (acústico/UHF, IEC 62478), que diz se a fonte é interna ou externa e onde está; e a inspeção e o histórico do ativo. A quantificação calibrada em pC (IEC 60270) acompanha a severidade. Nenhuma fonte isolada decide: a conclusão é de engenharia.

Aviso técnico. Conteúdo educativo. A classificação do tipo de DP exige instrumento adequado, equipe qualificada e responsabilidade técnica.

8. Como a Tecnvolt classifica a DP

A Tecnvolt, empresa de engenharia elétrica de Recife/PE com atuação no Nordeste, cruza o PRPD, a localização (acústico/UHF) e o conhecimento do ativo para classificar o mecanismo predominante e dimensionar o risco, entregando recomendação proporcional — sem alarme falso nem subestimação.

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Perguntas frequentes

Qual tipo de DP é mais perigoso?

Depende do contexto. DP interna avançada (delaminação/treeing) em isolação sólida costuma ser crítica; corona externa pode ser menos grave. O risco real exige avaliação técnica.

O que é tracking?

É a evolução de DP superficial em caminhos carbonizados condutivos sobre a superfície da isolação, comuns sob contaminação e umidade.

Corona indica falha iminente?

Nem sempre. A corona ocorre no ar, em pontas e bordas; muitas vezes é mitigável por geometria, sem comprometer a isolação principal.

Dá para identificar o tipo só pelo PRPD?

O PRPD dá fortes indícios, mas a confirmação combina localização e inspeção, com decisão de engenharia.

Referências

  • IEC 60270 — Partial discharge measurements.
  • IEC 62478 — Measurement of PD by electromagnetic and acoustic methods.
  • F. H. Kreuger — Partial Discharge Detection in High-Voltage Equipment.
  • E. Kuffel, W. S. Zaengl, J. Kuffel — High Voltage Engineering: Fundamentals.
  • Documentos técnicos do CIGRÉ sobre mecanismos e padrões de DP; normas ABNT NBR aplicáveis.

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