A medição de descargas parciais (DP) pelo método elétrico é a referência mundial para quantificar a atividade de descarga em isolação de média e alta tensão. Normalizado pela IEC 60270, o método define o circuito de ensaio, a grandeza principal — a carga aparente, em picocoulombs (pC) — e o procedimento de calibração que garante rastreabilidade e comparabilidade. Este artigo detalha o circuito, o quadripolo de medição, a calibração e as faixas de frequência.

Por Raphael Leite Menezes Santos — Especialista em Sistema Elétrico de Potência · Tecnvolt Engenharia (Recife/PE)

Instrumento de medição de descargas parciais MPD-800
O método elétrico da IEC 60270 quantifica a DP em carga aparente (pC).

Resumo. Apresenta-se o circuito de medição de DP da IEC 60270 (objeto sob ensaio, capacitor de acoplamento, dispositivo de acoplamento e instrumento), os arranjos direto e indireto, o conceito e a execução da calibração em pC, a distinção entre sistemas de banda larga e banda estreita, e as principais fontes de ruído e técnicas de rejeição.

1. Por que padronizar a medição

A carga física que circula em um defeito de DP é praticamente imensurável a partir dos terminais do equipamento. O que se mede é um pulso de corrente de altíssima frequência induzido no circuito externo. Sem um método padronizado e calibrado, leituras de instrumentos, equipes e datas diferentes seriam incomparáveis. A IEC 60270 resolve isso ao definir uma grandeza reprodutível — a carga aparente — e o procedimento para obtê-la com rastreabilidade.

2. O circuito de medição

O circuito clássico de DP é composto por quatro blocos essenciais:

  • Fonte de alta tensão livre de DP — deve estar isenta de descargas próprias no nível de ensaio, sob pena de mascarar a medição;
  • Objeto sob ensaio (Ca) — o equipamento cuja isolação se avalia, que se comporta predominantemente como uma capacitância;
  • Capacitor de acoplamento (Ck) — capacitor de baixa indutância e livre de DP, que oferece caminho de baixa impedância para os pulsos rápidos;
  • Dispositivo de acoplamento / quadripolo de medição (CD/Zmi) — a impedância de medição que converte o pulso de corrente em sinal mensurável, conectada ao instrumento de DP.
Diagrama do circuito de medição de descargas parciais conforme IEC 60270
Arranjo básico do circuito de medição de DP.

2.1. Arranjo direto e indireto

Há duas configurações normalizadas, conforme onde se insere o dispositivo de acoplamento. No arranjo direto, o quadripolo é colocado em série com o objeto sob ensaio (no seu ramo de terra). No arranjo indireto, ele fica em série com o capacitor de acoplamento. A escolha depende de aspectos práticos e de segurança — por exemplo, a possibilidade de aterrar diretamente um dos terminais do objeto — e ambos, quando corretamente calibrados, fornecem a mesma grandeza.

3. Carga aparente e relação com a carga real

Quando a cavidade descarrega, há uma queda abrupta de tensão sobre ela; o circuito externo “repõe” carga para reequilibrar o sistema, e é essa carga transferida nos terminais que define a carga aparente q. Pelo modelo capacitivo a-b-c, a carga aparente é uma fração da carga real do defeito, ponderada pela razão entre a capacitância em série com a cavidade e a capacitância total. Por isso q é sempre menor que a carga real — porém, sendo medida de forma padronizada, é reprodutível e serve à comparação e ao acompanhamento temporal.

4. Calibração: o passo que dá significado aos pC

A calibração estabelece o fator de escala entre o sinal medido e a carga em pC. Usa-se um calibrador que injeta, entre os terminais do objeto, uma carga conhecida q0 obtida aplicando-se um degrau de tensão U0 sobre um capacitor de valor conhecido C0:

q0 = C0 · U0

O instrumento, então, relaciona a resposta lida a essa carga conhecida, determinando o fator de escala do conjunto. Pontos importantes: a calibração deve ser feita com o objeto conectado (a capacitância do objeto influencia a resposta), o calibrador deve ter incerteza adequada e a verificação deve ser periódica. Sem calibração válida, os valores em pC não têm rastreabilidade e não podem ser comparados entre ensaios.

Cartões com grandezas de DP: carga aparente, tensão de início, tensão de extinção e taxa de repetição
Grandezas quantificadas no método elétrico.

Precisa de medição de DP calibrada e rastreável? A Tecnvolt executa conforme a IEC 60270.

Falar com um especialista no WhatsApp

5. Faixa de frequência: banda larga x banda estreita

Os sistemas de medição de DP diferem na faixa de frequência em que processam o pulso. Os de banda larga preservam melhor a forma do pulso e oferecem boa resolução temporal, úteis para separar pulsos próximos e para localização. Os de banda estreita, sintonizados em uma frequência central, podem oferecer melhor relação sinal/ruído em ambientes específicos. A IEC 60270 estabelece requisitos de resposta para ambos, de modo que a leitura em pC permaneça consistente.

6. Grandezas derivadas e índices

Além da carga aparente máxima, instrumentos modernos reportam índices integrais — corrente média de descarga, potência de DP e contagens por faixa de magnitude — que buscam representar a energia depositada e a atividade global. Esses índices ajudam a comparar estados ao longo do tempo, mas devem ser interpretados em conjunto com o padrão PRPD e com as tensões de início e extinção, não isoladamente.

7. Ruído e sua rejeição

O maior desafio prático, sobretudo em campo, é separar a DP do ruído (corona externa, chaveamentos, rádio, eletrônica de potência). As estratégias incluem: uso de fonte e ambiente blindados; gating temporal (janelas que descartam intervalos contaminados); discriminação por forma de pulso e por frequência; e técnicas de sincronismo e correlação multicanal. A qualidade da rejeição de ruído é o que distingue uma medição confiável de uma leitura inconclusiva.

8. Aceitação x diagnóstico

O mesmo método serve a dois objetivos. Em ensaios de aceitação (fábrica/comissionamento), verifica-se se a DP no nível de ensaio especificado está abaixo do critério aplicável. Em diagnóstico de ativos em serviço, o foco é caracterizar a fonte (padrão PRPD), quantificar a severidade e, principalmente, acompanhar a tendência. Os critérios de aceitação não são universais: dependem do equipamento, da classe e da norma de produto aplicável.

Aviso técnico. Conteúdo educativo. A medição de DP envolve alta tensão e exige equipe qualificada, instrumentos calibrados, procedimentos de segurança e responsabilidade técnica.

9. Como a Tecnvolt mede descargas parciais

A Tecnvolt, empresa de engenharia elétrica de Recife/PE com atuação no Nordeste, realiza a medição de DP pelo método elétrico da IEC 60270, com calibração rastreável, controle de ruído, aquisição do padrão PRPD e, quando necessário, localização por métodos acústico e UHF (IEC 62478). O resultado é um laudo que classifica a condição e orienta a decisão de manutenção.

Quer um ensaio de DP com método e laudo rastreável? Fale com a equipe da Tecnvolt.

Agendar um diagnóstico elétrico

Perguntas frequentes

Por que calibrar com o objeto conectado?

Porque a capacitância do objeto influencia a resposta do circuito. Calibrar com ele conectado garante que o fator de escala em pC corresponda às condições reais do ensaio.

Banda larga ou banda estreita?

Depende do objetivo e do ambiente. Banda larga favorece resolução temporal e localização; banda estreita pode melhorar a relação sinal/ruído em certos casos. Ambas são previstas pela IEC 60270.

A carga aparente é a carga real do defeito?

Não. É um equivalente medido nos terminais, sempre menor que a carga real, porém reprodutível e comparável quando o sistema é calibrado.

Como lidar com o ruído em campo?

Com blindagem, gating temporal, discriminação por forma de pulso e frequência e técnicas multicanal — a rejeição de ruído é decisiva para a confiabilidade da medição.

Referências

  • IEC 60270 — High-voltage test techniques – Partial discharge measurements.
  • IEC 62478 — Measurement of partial discharges by electromagnetic and acoustic methods.
  • IEEE Std C57.113 — Recommended Practice for Partial Discharge Measurement in Liquid-Filled Power Transformers and Shunt Reactors.
  • F. H. Kreuger — Partial Discharge Detection in High-Voltage Equipment.
  • E. Kuffel, W. S. Zaengl, J. Kuffel — High Voltage Engineering: Fundamentals.
  • Documentos técnicos do CIGRÉ sobre medição de descargas parciais; normas ABNT NBR aplicáveis (incluindo adoções das IEC).

Referências indicadas por título/escopo. Confirme a edição vigente e os dados bibliográficos completos na fonte oficial.