
Diagnosticar o transformador de força de uma subestação de 69 kV é cruzar várias leituras independentes da sua condição. Cada ensaio elétrico ilumina um ângulo diferente — o óleo, a isolação, os enrolamentos, as conexões — e nenhum, sozinho, dá o veredito. O valor da manutenção preditiva está justamente na interpretação combinada: ler o conjunto, comparar com o histórico e decidir com base na tendência.
Neste artigo, quinto da série sobre manutenção de SE 69 kV, detalho os principais ensaios elétricos do transformador e o que cada um revela, separo os que podem ser feitos com a SE energizada dos que exigem parada, e mostro como interpretar os resultados de forma combinada para chegar a uma decisão técnica defensável.
Por Raphael Leite Menezes Santos — Especialista em Sistema Elétrico de Potência · Tecnvolt Engenharia · Tempo de leitura: 14–17 min
Resumo técnico
Os ensaios do transformador de SE 69 kV se dividem entre os que dispensam desligamento — DGA e físico-químico do óleo (rigidez dielétrica, água, acidez, tensão interfacial) — e os de parada — fator de potência/capacitância da isolação e das buchas, resistência de enrolamento (CC) e relação de transformação. A interpretação é combinada: vale mais a tendência do que o valor pontual, correlacionam-se indicadores (acetileno + relação + corrente de excitação), corrigem-se valores para a temperatura e decide-se entre manter, intervir ou substituir. Confirme a edição vigente das normas.
Quero ensaios elétricos no transformador da minha SE
1. Os ensaios e o que revelam
Cada ensaio responde a uma pergunta específica sobre a condição do transformador.

A DGA identifica gases dissolvidos no óleo gerados por descargas e sobreaquecimentos: hidrogênio, metano, etileno e, sobretudo, acetileno (associado a arcos de alta energia). O físico-químico do óleo mede a rigidez dielétrica (capacidade de isolar), o teor de água (umidade migra para o papel e acelera o envelhecimento), a acidez (oxidação do óleo) e a tensão interfacial (presença de contaminantes). O fator de potência / capacitância avalia a qualidade do isolamento dos enrolamentos e das buchas — um fator de potência crescente denuncia isolação degradada ou úmida. A resistência de enrolamento (medida em corrente contínua) verifica a integridade de espiras e conexões internas, inclusive os contatos do comutador. E a relação de transformação confirma o número efetivo de espiras e a continuidade dos enrolamentos.
2. Energizado x desenergizado

Uma distinção operacional importante separa os ensaios. A DGA e o físico-químico são feitos a partir de uma amostra de óleo coletada com o transformador energizado — não exigem parada e por isso são a base do acompanhamento periódico e do alerta precoce. Já o fator de potência, a resistência de enrolamento e a relação de transformação exigem desligamento: o transformador precisa estar desenergizado, bloqueado e aterrado para que se aplique a instrumentação aos terminais. Por isso esses ensaios são concentrados nas janelas de parada programada, ou disparados após um alerta da DGA ou de um evento.
Esse arranjo define a cadência da preditiva: a amostragem de óleo vigia continuamente, com a SE em operação, e os ensaios de parada confirmam e localizam o que o óleo sinalizou, aproveitando o desligamento para o conjunto completo de medições.
3. Interpretação combinada
O erro mais comum é julgar o transformador por um único número. A interpretação correta é combinada e segue alguns princípios. Primeiro, a tendência vale mais que o valor pontual: um indicador estável, mesmo um pouco elevado, preocupa menos que um indicador em crescimento acelerado. Segundo, correlacionam-se os ensaios: acetileno na DGA, somado a alteração na relação de transformação e na corrente de excitação, aponta um problema interno mais sério do que qualquer um isolado sugeriria. Terceiro, corrige-se a temperatura: a resistência de enrolamento e o fator de potência dependem da temperatura, e comparar medições feitas em condições térmicas diferentes sem correção leva a conclusões erradas.
Com esse quadro montado, a decisão se organiza em três caminhos: manter em acompanhamento (condição estável e dentro de referência), intervir (corrigir buchas, comutador, secagem do óleo) ou planejar substituição (degradação avançada e irreversível). É a leitura conjunta — e o histórico — que torna essa decisão técnica e defensável.
Boa prática
Mantenha um histórico longitudinal de cada ensaio do transformador e sempre corrija os resultados para a temperatura de referência antes de comparar campanhas. A decisão de manter, intervir ou substituir deve nascer da tendência e da correlação entre indicadores, nunca de uma medição isolada fora de contexto.
Aviso técnico
Os ensaios de fator de potência, resistência e relação exigem o transformador desenergizado, bloqueado, com teste de ausência de tensão e aterramento temporário, executados por profissional habilitado e autorizado com treinamento em Sistema Elétrico de Potência (SEP), conforme a NR-10. A coleta de óleo energizada também segue procedimentos de segurança. Confirme a edição vigente das normas.
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Como a Tecnvolt Engenharia executa esse serviço
A Tecnvolt Engenharia executa os ensaios elétricos do transformador de SE 69 kV com instrumentação de campo: coleta e interpreta DGA e físico-químico do óleo, mede fator de potência/capacitância, resistência de enrolamento e relação na janela de parada, corrige os resultados para a temperatura e correlaciona os indicadores em laudo com ART, indicando manter, intervir ou substituir. Atuamos em campo na região Nordeste, em subestações de indústrias, geração e concessionárias.
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Perguntas frequentes
Quais ensaios elétricos o transformador precisa?
Os principais são DGA e físico-químico do óleo (rigidez, água, acidez, tensão interfacial), fator de potência/capacitância da isolação e buchas, resistência de enrolamento em CC e relação de transformação. Cada um revela um aspecto distinto da condição.
Um único ensaio fecha o diagnóstico?
Não. A interpretação é combinada: correlacionam-se indicadores (por exemplo, acetileno na DGA com alteração de relação e corrente de excitação) e se lê a tendência ao longo do tempo. Um número isolado fora de contexto leva a conclusões erradas.
Preciso desligar para ensaiar?
Depende do ensaio. DGA e físico-químico são feitos com amostra de óleo e o transformador energizado. Já fator de potência, resistência de enrolamento e relação exigem desenergização, bloqueio e aterramento temporário, conforme a NR-10.
Por que corrigir a temperatura?
Porque a resistência de enrolamento e o fator de potência variam com a temperatura. Comparar medições feitas em condições térmicas diferentes sem corrigir para uma referência comum falseia a tendência e pode mascarar ou simular uma degradação.
Referências técnicas
- IEEE C57.152 — Diagnostic Field Testing of Fluid-Filled Power Transformers.
- IEEE C57.12.90 — Test Code for Liquid-Immersed Distribution and Power Transformers.
- IEC 60599 / IEEE C57.104 — Interpretação de gases dissolvidos (DGA).
- IEC 60422 — Supervisão e manutenção do óleo isolante mineral.
As normas são citadas pelo escopo. Confirme sempre a edição vigente junto à fonte oficial e às exigências regulatórias do setor.
