
Não dá para abrir um transformador de força em operação para ver como está sua parte ativa. Mas o óleo isolante que circula por dentro dele carrega, dissolvidos, os sinais de tudo o que acontece ali: aquecimentos localizados, descargas, envelhecimento do isolamento. Analisar esse óleo é, na prática, a forma de enxergar o interior do equipamento sem abri-lo — e de fazer isso com a subestação de 69 kV em operação.
A análise de gases dissolvidos (DGA) e os ensaios físico-químicos são, por isso, o coração da manutenção preditiva de transformadores e reatores. Este artigo explica por que se analisa o óleo, o que a DGA detecta e o que cada ensaio físico-químico avalia — sempre com a regra de ouro: a tendência ao longo do tempo importa mais do que um valor isolado.
Por Raphael Leite Menezes Santos — Especialista em Sistema Elétrico de Potência · Tecnvolt Engenharia · Tempo de leitura: 13–17 min
Resumo técnico
O óleo isolante isola e refrigera e é o principal veículo de informação sobre o interior do transformador. A DGA analisa gases-chave dissolvidos (H2, CH4, C2H6, C2H4, C2H2, CO, CO2) para distinguir defeitos térmicos de descargas, usando métodos como Duval e Rogers e normas como a IEC 60599 e a IEEE C57.104 — sempre privilegiando a tendência sobre o valor pontual. Os ensaios físico-químicos (rigidez dielétrica, teor de água interpretado com a temperatura, acidez, tensão interfacial) avaliam a saúde do óleo e orientam a decisão de tratar, regenerar ou substituir.
Quero analisar o óleo e a DGA dos equipamentos da minha SE 69 kV
1. Por que analisar o óleo
O óleo isolante não é apenas um fluido passivo: é parte ativa do isolamento e da informação do equipamento.

O óleo cumpre duas funções no transformador: isola eletricamente as partes internas e refrigera, transportando o calor da parte ativa para os radiadores. Ao circular por todo o equipamento, ele se torna o veículo de informação sobre o que ocorre lá dentro: defeitos geram gases e partículas que o óleo dissolve e carrega. Com o tempo, o próprio óleo envelhece — a temperatura, a água e o oxigênio o oxidam, formando ácidos e borras que reduzem seu desempenho. Analisar o óleo periodicamente, portanto, atende a dois objetivos: diagnosticar a condição do equipamento e avaliar a saúde do próprio fluido.
2. DGA: análise de gases dissolvidos

A DGA mede os gases-chave dissolvidos no óleo: hidrogênio (H2), metano (CH4), etano (C2H6), etileno (C2H4), acetileno (C2H2), monóxido de carbono (CO) e dióxido de carbono (CO2). O padrão desses gases distingue a natureza do defeito: predominância de hidrocarbonetos como metano e etileno aponta para defeitos térmicos de diferentes severidades, enquanto a presença de acetileno é característica de descargas de alta energia, como arcos internos. O CO e o CO2 informam sobre a degradação do papel isolante. Métodos de interpretação como o triângulo de Duval e a razão de Rogers, alinhados às normas IEC 60599 e IEEE C57.104, organizam esse diagnóstico. A regra fundamental: a tendência — a taxa de geração de gás entre amostras — diz mais do que um valor pontual, porque mostra se o defeito está ativo e evoluindo.
3. Físico-químico e ação
Enquanto a DGA olha o equipamento, os ensaios físico-químicos olham a saúde do óleo e orientam a ação.
A rigidez dielétrica mede a capacidade do óleo de suportar tensão sem romper, sensível à presença de água e partículas. O teor de água precisa ser interpretado junto com a temperatura da amostra, porque a distribuição da água entre o óleo e o papel depende dela — uma leitura sem a temperatura associada pode enganar. A acidez indica o grau de oxidação e envelhecimento do óleo, e a tensão interfacial complementa esse quadro, caindo quando há produtos de degradação. A partir desse conjunto, decide-se a ação: tratar o óleo (filtragem, secagem a vácuo) para remover água e gases, regenerar para restaurar propriedades quando o envelhecimento é avançado mas reversível, ou substituir quando o óleo chegou ao fim da vida útil.
Boa prática
Construa e mantenha o histórico de cada equipamento: a DGA e o físico-químico só revelam todo o seu valor quando comparados com amostras anteriores. Sempre registre a temperatura do óleo na coleta — sem ela, o teor de água não tem leitura confiável — e avalie a taxa de geração de gás, não apenas o número da última amostra.
Aviso técnico
A coleta de amostras e a interpretação são tarefas técnicas: a amostragem em equipamento energizado deve seguir procedimento seguro, e a leitura dos resultados exige critério, pois um diagnóstico errado pode tanto mascarar um defeito ativo quanto condenar um equipamento saudável. Qualquer intervenção no equipamento envolve alta tensão e deve seguir a NR-10, com profissional habilitado e autorizado, desenergização, bloqueio e aterramento temporário quando couber.
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Como a Tecnvolt Engenharia executa esse serviço
A Tecnvolt Engenharia faz a gestão do óleo isolante dos transformadores e reatores de subestações de 69 kV: coleta amostras com procedimento seguro, realiza DGA e ensaios físico-químicos, interpreta os resultados pelos métodos consagrados e pela tendência do histórico, e recomenda tratar, regenerar ou substituir conforme o caso. Atuamos em campo na região Nordeste e consolidamos tudo em laudo técnico com ART.
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Perguntas frequentes
O que a DGA detecta?
Detecta defeitos internos do transformador pelos gases-chave que eles geram no óleo (H2, CH4, C2H6, C2H4, C2H2, CO, CO2). O padrão dos gases distingue defeitos térmicos de descargas e indica a severidade, com apoio de métodos como Duval e Rogers.
A presença de acetileno é grave?
O acetileno é característico de descargas de alta energia, como arcos internos, e por isso merece atenção. A avaliação correta considera a quantidade, a tendência de geração e o conjunto dos demais gases, segundo as normas aplicáveis.
Por que o teor de água depende da temperatura?
Porque a distribuição da água entre o óleo e o papel isolante varia com a temperatura. Por isso o teor de água deve ser interpretado junto com a temperatura da amostra; uma leitura sem essa referência pode enganar.
Quando tratar ou trocar o óleo?
Trata-se (filtragem, secagem) para remover água e gases; regenera-se quando o envelhecimento é avançado mas reversível; substitui-se quando o óleo chegou ao fim da vida útil. A decisão vem do conjunto físico-químico, da DGA e do histórico.
Referências técnicas
- IEC 60599 — interpretação da análise de gases dissolvidos (DGA).
- IEEE C57.104 — guia de interpretação de gases em transformadores imersos em óleo.
- ABNT NBR 7274 — interpretação da análise de gases dissolvidos.
- IEC 60422 / ABNT NBR 10576 — supervisão e manutenção do óleo isolante mineral.
As normas são citadas pelo escopo. Confirme sempre a edição vigente junto à fonte oficial e às exigências regulatórias do setor.
